Faz esta sexta-feira oito dias, ainda estava sobre o efeito de duas drogas pesadas. Mário Laginha e Bernardo Sasseti (ao vivo na Aula Magna) e Kings of Convenience (ao vivo no Coliseu dos Recreios) foram em dias seguidos e deixaram ressaca no corpo. "Não gastes palavras a tentar descrever", dizia-me a sensatez. "Vais queimar o que foi demasiado sereno na Aula Magna, a vírgula vai ser imprópria para o que se viveu em cima do palco do Coliseu e as frases (mais juntas ou mais separadas) nunca vão somar o sentido que tu queres". "Poupa". "Guarda". "Não partilhes". "Isso, ou faz o manifesto das palavras tolhidas - que vem das coisas demasiado intensas - e deixa imagens e sons falarem por ti." Foi o que fiz, quando as drogas me largaram o corpo.
Se a liberdade é isto, eu quero desta droga. Com o cabelo que isso usar, com os óculos que isso puser e com os tiques que isso implicar. A verdadeira liberdade não tem forma nem cabe num post. Mas isto rompe as costuras dos caracteres e dos preconceitos.
Achei mal que ele quase me virasse as costas, mas explicaram-me que vida de pianista é "ingrata"
(foi mesmo esta a palavra, demorei-me no peso desta palavra)
porque mãos e cara fazem conjunto que o público nunca pode sentir em uníssono. Deixei-me contente com a linha diagonal que conseguia ver e fixei-me no íman*. O piano que subiu ao palco do CCB, na noite de 29 de Outubro, é o óxido natural de ferro que atrai ferro e alguns metais. Sem desprimor, Meldhau, viras ferro por uma noite, que quem vê agradece. Tu, e os outros.
A propriedade física comum a Brad Meldhau Trio é o casamento que têm com os instrumentos que possuem. Quase que copulam (ergonomicamente) com o que tocam, porque envolvem-se fisicamente com o que estão a tocar. Normal em quem sente a música, dirão, mas nesta música que não leva voz se eles, de facto, não copulam, pois eu ia jurar que sim.
Os olhos estão fechados, fala-se pouco e baixo, e encarna-se o que alguém já fez, com a vontade que nós cheguemos lá, sem termos que esperar para ouvir de quem foi. Um jogo de memórias engraçado, a sensibilidade que só toca aos que vibram na plateia, o espectáculo que não entedia menores de 12 anos que saibam que o que é bom na vida funciona sempre como um íman. Por muita piada que o mundo tenha, se os nossos olham não copulam com o que estamos a ver, então não estamos a sentir.
Isso, ou só viemos passear ao jardim dos Jerónimos. E Meldhau, como é de ferro, veio aqui para emocionar. Quem quis, deixou-se tocar.
*
(francês aimant) s. m. 1. Óxido natural de ferro que atrai o ferro e alguns metais. = magnete 2. Barra ou agulha de ferro que adquiriu artificialmente a mesma propriedade. 3. Fig. Atracção!Atração, encanto.
- Jantamos? - Claro que sim. - Onde? - Não interessa, jantamos.
Eram amigos e importava estarem juntos. Não interessava onde, nem sequer porquê, mas apetecia-lhes e isso chegava-lhes. Iam e, de todas as vezes, tinham assuntos infindos e vontade de dizer um ao outro que gostavam daquilo. "Aquilo" era só estar. E dedicar tempo é Amor. Seja em que forma for. Numa cedência muito permeável às diferenças, iam discutindo tudo, entrando na vida um do outro, ao detalhe, em simbiose. Sem pudores, nem vontades, mas felizes. - Um dia, eu e tu ainda vamos acabar juntos.. Era ela, a rir, e a não crer no que dizia. Ele fez que não ouviu e lá dentro não acreditou nadinha. Ela e ele não sabiam que gostavam deles como gostavam. Porque eles, os dois (juntos!), funcionavam sem barulho, sem que os próprios reconhecessem o valor do silêncio. Mas a vida não se escreve óbvia e eles preferiram ser eles, antes de serem óbvios.
Hoje, se eles jantam? Claro que sim. Onde? Não interessa, mas jantam. Se são óbvios? São óbvios, para eles próprios, porque se gostam sem barulho, no silêncio de "estar", a dedicar tempo ao Amor, na forma em que eles o criaram.
O alcance do bom jornalismo é infinito. E quando o talento para o fazer se desdobra em bruto, ainda mais promissor tem que ser. Jorge Pelicano é um dos rubis a polir (se ainda tiver por onde) no jornalismo português. Consegue "usurpar" (em bom) a realidade e convertê-la em cinema. Já aqui disse o mesmo sobre "Ainda há pastores?" mas "Páre, Escute e Olhe" excede-se a ele próprio. Pelicano pousou o olhar no fecho da linha do Tua e fê-lo com o tempo que as grandes reportagens demoram a ser feitas. O mais impressionante no olhar "demorado" sobre as coisas, é conseguir com que cada um dos cidadãos faça dos seus desabafos inocentes, uma corrente de narrativa lindíssima. Narrativa essa que está casada com os silêncios (e o valor destes silêncios!), com a densidade das imagens, com a força das frases que saltam do negro e acaba intercalada com as barbaridades dos políticos. Nasce o bom "cinema" (vincado de "personagens" que conseguimos caracterizar à exaustão) que - aprecie-se! - só tem por base a realidade. O segredo de qualquer documentário - dirão - mas o mais difícil de se conseguir num bom documentário.
Os prémios (e já caem, os merecidos) estão abaixo do "preço" de um trabalho destes.
O telefone tocava, quase sempre, às quatro e meia da tarde. Dúvidas, dizia ele. Eram dúvidas o que trazia dentro dentro dele, sempre, e de todas as vezes, para tirar. Quatro e meia da tarde... Fosse depois do teste que tinha sido ou do exame terrível que estava para vir.
A dúvida movia o mundo dele (como sei que ainda move) e isso desenha-o um dos seres mais especiais que a minha vida já viu. As perguntas que lhe mexiam os papéis sugavam um terço do telefonema. O resto (da conta da matemática que ele não consumia) eram emoções. Essas, transformadas em dúvidas existenciais de onze anos de idade, eram matéria de livros intermináveis de sensações. Eu, do lado de cá da linha, tentava tapar os buracos das dúvidas que os testes traziam, mas nunca lhe consegui responder a todas as perguntas que a matéria não explicava.
Num dos quartos para as cinco, de uma das quatro e meia da tarde, ele perguntou "Porque é que nós não vivemos a tempo de os ver [aos Queen] ao vivo?". E a ciência (somada à genética que confere a concepção), explicados do alto dos meus onze anos de vida, não o esclareceram. Na verdade, acho que nem eu me preocupei em dar-lhe ciência. Fui solidária na pena, o silêncio fez-se a minha não resposta, e tornamo-nos unidos na causa da tristeza dos timings do mundo. Ele ouvia a "Bohemian Rhapsody" do outro lado da linha. Trauteou baixinho (porque a pena não quer barulhos) as dúvidas das palavras na letra, durante todo o silêncio da minha resposta em branco.
O meu telefone de casa, agora, já não toca às quatro e meia da tarde. Mas tenho a certeza que hoje, anos depois, se o destino nos cruzar na rua, a um quarto para as cinco, ele ainda vai ter a mesma dúvida. E a minha resposta não cresceu com os anos. Aumentou a pena, que às quatro e meia da tarde lhe vai trautear as palavras na letra, cheias das dúvidas que movem o mundo e se afogam em silêncios inexplicavéis. E se esse dia vier, vou parar para lhe explicar que foi aos onze anos que percebi que as coisas mais bonitas, na verdade, nunca têm resposta possível.
Quando o fado, assumidamente, usurpou, consumiu e transformou (em bom) a música brasileira, então é porque a arte acabou de ganhar dimensões que a própria razão desconhece.